A juíza bate o martelo e declara a sentença: "Bárbara, você possui 10 meses para poder mudar radicalmente a sua conduta alimentícia e se reintegrar a sociedade como uma pessoa de hábitos alimentares saudáveis, corpo magro e mente sã, contados a partir do momento que você procurou a clínica de emagrecimento e sua mãe efetuou o pagamento da mesma. Já transcorreram dois meses desde a sua primeira entrada na clínica. Portanto, a senhorita dispõe de oito meses.”
Oito meses. Quando iniciei o tratamento me disseram que o ideal seria emagrecer nos três primeiros meses e os outros próximos seriam para apreender a reeducar a minha alimentação e manter o peso. Dois meses já se passaram e nem metade do peso que me dispus a eliminar eu perdi. Agora me restam oito meses.
Sempre fui aquele tipo de pessoa que deixa tudo para a última hora, que funciona sobre pressão. Daí, como tinha pouco tempo para executar alguma coisa, ficava estressada, brigava, mas no final, fazia. Nunca saia como eu gostaria. Sempre reclamava que deveria ter começado antes. Que se tivesse aproveitado o tempo que tive, essa tarefa poderia sair do jeito que eu gostaria. Um exemplo: quando tenho uma prova, vou enrolando, enrolando, até que chega um dia antes dela e eu ficou doidinha tentando estudar toda aquela matéria gigante. Tem gente que consegue essa façanha. Mas eu não consigo, e sei disso, porque estudo devagar, sou bastante distraída e tenho que ler várias vezes para poder entender. Não sou de decorar matéria. Aquilo que não entendendo, descarto. O problema é que existe prova que infelizmente cobra “decoreba”. Nessa, eu me f*!
A juíza, então, continuou: “Penalidades: passado o prazo sem o cumprimento do disposto à cima, não será desembolsado nenhuma quantia para a tentativa de um novo emagrecimento, e você deverá arcar com as conseqüências de virar uma pessoa gorda. Uma dessas conseqüências será de ter que pagar a própria cirurgia de redução de estômago, porque do jeito que a senhorita está comendo irá se transformar em uma pessoa bastante gorda, vulgo, “bolota””. Fiquei com medo. Bastante medo. Não quero virar uma “bolota”. Mas meu tempo está passando e ao invés de aproveitar ele para conseguir emagrecer e reeducar minha alimentação, estagnei outra vez, parei no tempo. Redução de estômago não é solução de longo prazo. A pessoa tem que reeducar a alimentação e a cabeça de gordo. E essa reeducação leva tempo. E meu tempo está acabando. Oito meses. Um vez, ouvi falar que o corpo demora um ano para se acostumar com a nova alimentação. Se isso for verdade, eu não estou dando chance para ele se acostumar. Todo final de semana, agora, virou farra de abusos alimentícios. E o pior (ou melhor, sei lá) parei de vomitar. Toda aquela porcaria que eu coloco pra dentro está sendo digerida e acumulada pelo meu corpo.
Mas, pergunta que não sei responder: se eu sei de todas as conseqüências da ingestão exagerada de comida, se eu sei que existe um vazio dentro de mim que não pode ser preenchido com comida, então, por que eu continuo a comer tanto? Falta de força de vontade? Preguiça? Acomodação? Arrumar desculpas para poder comer? Estou começando a achar que sim. Eu quero emagrecer. Isso é fato. Não existe mais dúvida sobre isso. Mas então, por que já acordo querendo comer muito, sendo que já sei que tipo de “fome” eu estou sentindo. Basta respirar fundo, toma água e limpar a mente de todos os pensamentos desestimulantes. Se sei disso, por que não faço? Parece que me exige uma força sobrenatural e eu acabo cedendo a fome. Meu Deus, por que estou sofrendo tanto para emagrecer? Não é tão sofrido assim? Eu me sinto bem comendo o que está no meu regime. Mas por que esse sofrimento, essa necessidade de ceder? Já dei o primeiro passo para a caminhada do emagrecimento. Mas a cada passada, parece que estou carregando um peso enorme, difícil de carregar, que me puxa para trás e eu cedo. Por que?
Ontem disse pra mim mesma que levantaria cedo para corre em um lugar que sempre quis correr. Acordei cedo, mas cedi ao sono e dormi até mais tarde. Quando acordei, me senti mal e frustrada, e por isso já iniciei o dia comendo muito. O fato de não fazer caminhada hoje deveria servir de estímulo para eu poder manter a dieta e não comer nada a mais, não é mesmo? Mas não. Arranjei a desculpa: “já que não fiz o que tinha planejado, vou comer!”. Eu radicalizei. E o pior, fiquei desejando ter dormido mais pra pode não iniciar tão cedo a minha comilança. Às vezes, acho que fico querendo ter pena de mim mesma. Quem sente pena se si mesmo são pessoas fracas. Será que eu quero ser uma pessoa fraca? Não, não quero. Sinto ódio de mim mesma por ter cedido ao monstro novamente. Deveria ter caminhado de tarde, visitado um colega, pegado o ônibus e passeado pela cidade, enfim, saído de casa. Mas não. Fiquei em casa me entupindo. Se eu sabia o que tinha que fazer, por que não fiz? Essa é a pergunta que não tenho resposta. Preguiça? Talvez. Faço exercícios durante a semana, no fim de semana queria descansar. Não gosto muito de visitar as pessoas. Pegar ônibus sempre me deu preguiça. Mas então, o que mais eu poderia fazer no final de semana para não ficar em casa? E por que ficar em casa não poderia ser prazeroso também? No final de semana tudo sai de órbita e eu volto ao ponto inicial da minha caminhada. Justo o final de semana que deveria ser prazeroso, pois eu saio da rotina, não tenho aula e posso dormir até mais tarde.
O que poderia substituir a comida para preencher o vazio dentro de mim? Essa é a grande questão. Descobri que parte do vazio dentro de mim deve-se ao fato de eu não me amar, de não gostar de mim mesma, de não me bastar. Parece que sempre carreguei um peso morto que atrasa a minha vida. Não quero envelhecer e ficar reclamando das coisas que não fiz. O que eu deveria fazer para gostar mais de mim? Eu nunca gostei de mim mesma. É como se você fosse obrigada a gostar de uma pessoa que nunca gostou. Para isso, você tem que se apegar as qualidades dessa pessoa, para tentar suportar ela. Agora eu entendi porque que os psicólogos me perguntam quais são as minhas qualidades. Para eu me agarrar a elas e começar a me suportar. Porque vai que me suportando eu acabe gostando de mim. Já parei para pensar seu eu quero gostar de mim, também. Não queria não. Me acho feia, gorda, burra, sem atrativos. Se fosse bonita, inteligente e magra seria mais fácil gostar de mim (rsrsrsrs). Mas sou obrigada a viver comigo mesma. E para sair dessa tenho que começar a querer ver alguma qualidade em mim. Não basta ver e enumerar quais são minhas qualidades. Tenho que acreditar nelas, querer aprimorá-las e gostar delas, para começar a gostar de mim. Acho que acabei de descobrir um princípio da psicologia. Rs! E sem ler nenhum livro de psicologia! A teoria se realizando na prática. Tenho que começar a dar mais valor aos livros teóricos que leio para meu curso. Mas que é chato ler teoria, isso é!
Acreditar. Não basta só saber que possuo o vislumbre de uma qualidade. Tenho que acreditar que a tenho e aprimorá-la. Acreditar que é possível eu emagrecer. Mas posso digitar a palavra “acreditar” milhões de vezes. Se intimamente eu não assimilar o seu significado, de nada vai valer eu saber que preciso acreditar. E também, não é de um dia para o outro que vou passar a acreditar que posso emagrecer. Mas estou começando a colocar fé em mim novamente. Eita, pessoa contraditória que eu sou! Queria ser mais simples, mais prática. Ficar filosofando, infelizmente, não vai me levar a lugar nenhum.
Bom, eu não disse quem é a juíza. Pois é. Ela é minha mãe. A sentença é o jeito delicado de ser dela comigo. Não tiro sua razão. Tenho pouco tempo para emagrecer e me reerguer. Ela não vai ficar mais pagando tratamento de espécie alguma para mim e eu também já estou farta de me submeter a esses tratamentos e não sair do círculo vicioso que me encontrava. Aos 21 anos idade estou tentando encontrar o chão da minha vida e o motivo da minha existência. Pena não ter feito isso antes. Sinto que joguei fora 21 anos da minha vida. Nunca vivi direito. Nunca fui feliz. Desde pequena coloco a culpa da minha infelicidade no meu peso. Mas vejo agora que coisa é mais profunda, que o vazio dentro de mim sempre existiu. Mas não quero ser uma gorda, gordinha ou cheinha feliz. Quero ter um corpão e ser feliz. Claro! Não estou correndo na esteira e malhando a toa. Que as conclusões que tirei hoje me ajudem nos próximos dias.
Beijos!
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